Durante décadas, a frase dita no consultório foi sempre a mesma: diabetes tipo 2 é progressivo e para o resto da vida. A conversa mudou em 2018, quando saiu o resultado de um estudo escocês chamado DiRECT.
Vale entender o que ele mostrou, porque a manchete ("diabetes tem cura") é errada, e o achado real é mais interessante que ela.
O que o estudo fez
O DiRECT acompanhou 306 adultos com diabetes tipo 2 atendidos na rede de atenção primária do Reino Unido. Todos tinham diagnóstico havia menos de seis anos, índice de massa corporal entre 27 e 45, e nenhum usava insulina.
Metade recebeu o cuidado habitual. A outra metade entrou num programa estruturado: substituição total da alimentação por uma fórmula de cerca de 850 calorias por dia durante três a cinco meses, reintrodução gradual dos alimentos, e depois acompanhamento contínuo para manter o peso. Os medicamentos do diabetes foram retirados no início do programa, dentro do protocolo e sob supervisão.
Os resultados
Em doze meses, 46% do grupo de intervenção estava em remissão, contra 4% do grupo controle. Vinte e quatro por cento perderam 15 kg ou mais, algo que não aconteceu com ninguém do grupo controle.
Mas o dado mais revelador não é a média. É a relação entre peso perdido e remissão:
- Quem perdeu 15 kg ou mais: 86% em remissão
- Entre 10 e 15 kg: 57%
- Entre 5 e 10 kg: 34%
- Menos de 5 kg: 7%
A remissão acompanhou o peso perdido de forma quase linear. Não foi sorte, nem resposta idiossincrática de alguns pacientes. Foi dose e resposta.
Em dois anos, a remissão se manteve em 36% do grupo de intervenção contra 3% do controle. No seguimento de cinco anos, ficou numa minoria, algo em torno de 13%. Esse número também precisa ser dito: manter é mais difícil que alcançar.
O que "remissão" quer dizer, exatamente
Existe uma definição de consenso, publicada em 2021 por sociedades americanas e europeias: hemoglobina glicada abaixo de 6,5% medida pelo menos três meses depois da suspensão de qualquer medicação para diabetes.
Repare no que a palavra não é. Não é cura. Quem entra em remissão continua precisando de acompanhamento e de glicada anual, porque o quadro pode voltar. O rastreamento de complicações, como o exame de fundo de olho, continua também.
Remissão é um estado, não um alta.
Por que não funciona para todo mundo
O critério de entrada do estudo explica boa parte. Diagnóstico recente, sem uso de insulina, e peso a perder.
A explicação fisiológica é que a gordura acumulada dentro do fígado e do pâncreas atrapalha o funcionamento das células que produzem insulina. Reduzir esse acúmulo permite que elas voltem a trabalhar, desde que ainda existam em número suficiente. Quanto mais tempo de doença, menor essa reserva, e menor a chance de remissão.
Por isso o mesmo esforço rende resultados muito diferentes em quem descobriu o diabetes há um ano e em quem convive com ele há quinze.
Um aviso que não é formalidade
No DiRECT, a retirada dos medicamentos foi feita por protocolo, com monitoramento e critérios definidos para reintroduzir. Parar remédio por conta própria depois de perder peso é diferente disso, e é perigoso, principalmente para quem usa insulina ou sulfonilureias, onde o risco de hipoglicemia é real.
A perda de peso pode, sim, mudar a necessidade de medicação. Quem decide isso é a avaliação clínica, com exame na mão.
O que eu tiro disso na prática
O diabetes tipo 2 deixou de ser uma sentença automática de progressão. Isso é uma boa notícia grande. Mas a remissão depende de fatores que dá para estimar antes de tentar: tempo de diagnóstico, reserva de função do pâncreas, quanto peso existe para perder, e o quanto a estratégia é sustentável depois que a fase intensiva acaba.
Se você tem diabetes tipo 2 e quer saber se remissão é um objetivo realista no seu caso, é isso que uma avaliação com história clínica e exames consegue separar.
Cada paciente deve ser avaliado individualmente. Nenhum medicamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem orientação médica.
