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Diabetes tipo 2 pode entrar em remissão? O que o estudo DiRECT mostrou

Quase metade dos participantes de um ensaio britânico ficou com glicada normal e sem medicação em um ano. Os números impressionam, e as condições em que isso acontece importam tanto quanto eles.

4 min de leitura

Durante décadas, a frase dita no consultório foi sempre a mesma: diabetes tipo 2 é progressivo e para o resto da vida. A conversa mudou em 2018, quando saiu o resultado de um estudo escocês chamado DiRECT.

Vale entender o que ele mostrou, porque a manchete ("diabetes tem cura") é errada, e o achado real é mais interessante que ela.

O que o estudo fez

O DiRECT acompanhou 306 adultos com diabetes tipo 2 atendidos na rede de atenção primária do Reino Unido. Todos tinham diagnóstico havia menos de seis anos, índice de massa corporal entre 27 e 45, e nenhum usava insulina.

Metade recebeu o cuidado habitual. A outra metade entrou num programa estruturado: substituição total da alimentação por uma fórmula de cerca de 850 calorias por dia durante três a cinco meses, reintrodução gradual dos alimentos, e depois acompanhamento contínuo para manter o peso. Os medicamentos do diabetes foram retirados no início do programa, dentro do protocolo e sob supervisão.

Os resultados

Em doze meses, 46% do grupo de intervenção estava em remissão, contra 4% do grupo controle. Vinte e quatro por cento perderam 15 kg ou mais, algo que não aconteceu com ninguém do grupo controle.

Mas o dado mais revelador não é a média. É a relação entre peso perdido e remissão:

  • Quem perdeu 15 kg ou mais: 86% em remissão
  • Entre 10 e 15 kg: 57%
  • Entre 5 e 10 kg: 34%
  • Menos de 5 kg: 7%

A remissão acompanhou o peso perdido de forma quase linear. Não foi sorte, nem resposta idiossincrática de alguns pacientes. Foi dose e resposta.

Em dois anos, a remissão se manteve em 36% do grupo de intervenção contra 3% do controle. No seguimento de cinco anos, ficou numa minoria, algo em torno de 13%. Esse número também precisa ser dito: manter é mais difícil que alcançar.

O que "remissão" quer dizer, exatamente

Existe uma definição de consenso, publicada em 2021 por sociedades americanas e europeias: hemoglobina glicada abaixo de 6,5% medida pelo menos três meses depois da suspensão de qualquer medicação para diabetes.

Repare no que a palavra não é. Não é cura. Quem entra em remissão continua precisando de acompanhamento e de glicada anual, porque o quadro pode voltar. O rastreamento de complicações, como o exame de fundo de olho, continua também.

Remissão é um estado, não um alta.

Por que não funciona para todo mundo

O critério de entrada do estudo explica boa parte. Diagnóstico recente, sem uso de insulina, e peso a perder.

A explicação fisiológica é que a gordura acumulada dentro do fígado e do pâncreas atrapalha o funcionamento das células que produzem insulina. Reduzir esse acúmulo permite que elas voltem a trabalhar, desde que ainda existam em número suficiente. Quanto mais tempo de doença, menor essa reserva, e menor a chance de remissão.

Por isso o mesmo esforço rende resultados muito diferentes em quem descobriu o diabetes há um ano e em quem convive com ele há quinze.

Um aviso que não é formalidade

No DiRECT, a retirada dos medicamentos foi feita por protocolo, com monitoramento e critérios definidos para reintroduzir. Parar remédio por conta própria depois de perder peso é diferente disso, e é perigoso, principalmente para quem usa insulina ou sulfonilureias, onde o risco de hipoglicemia é real.

A perda de peso pode, sim, mudar a necessidade de medicação. Quem decide isso é a avaliação clínica, com exame na mão.

O que eu tiro disso na prática

O diabetes tipo 2 deixou de ser uma sentença automática de progressão. Isso é uma boa notícia grande. Mas a remissão depende de fatores que dá para estimar antes de tentar: tempo de diagnóstico, reserva de função do pâncreas, quanto peso existe para perder, e o quanto a estratégia é sustentável depois que a fase intensiva acaba.

Se você tem diabetes tipo 2 e quer saber se remissão é um objetivo realista no seu caso, é isso que uma avaliação com história clínica e exames consegue separar.

Cada paciente deve ser avaliado individualmente. Nenhum medicamento deve ser iniciado, ajustado ou interrompido sem orientação médica.

Área de atuação

Diabetes, pré-diabetes e resistência à insulina

Investigação e acompanhamento de pré-diabetes, diabetes tipo 2 e resistência à insulina, com atenção ao risco cardiovascular associado.

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Dra. Karina Novak · CRM/PR 48.517 · RQE 34.383

O conteúdo acima é educativo e não substitui a consulta médica.